Dimensionar um evento como o Show do Paul McCartney em números não traduz exatamente o significado e os desdobramentos do espetáculo.
Mas quando analisado sob a ótica técnica, como uma tecnologia, pode-se avaliar que houve subdimensionamento no evento, mas não de forma quantitativa, e sim, qualitativa.
Como analisei no tópico anterior, um evento como esse deve ser dimensionado, analisado e avaliado como uma oportunidade ímpar. As expectativas são imensamente superiores a outros eventos com mesmo número de participantes e até mesmo, mesmos investimentos.
A realização de um evento com tamanha proporção requer diversos recursos, mas no que se refere aos humanos, a necessidade de contratação de profissionais capacitados para o atendimento das necessidades dos públicos pode ser o diferencial entre um evento qualquer e um espetáculo inesquecível.
No que se refere aos profissionais responsáveis pelos requisitos cenográficos, tecnológicos e estruturais, as equipes tiveram desempenhos sensacionais.
Mas vamos aos fatos...
Conforme também já mencionei no tópico anterior, muitos públicos não economizam esforços para ficarem em locais mais próximos do palco, como forma de tornar o evento exclusivo – pela maior e melhor proximidade com o artista, no caso, um BEATLE. Assim, é natural que ocorra uma antecipação na chegada dos públicos participantes do evento, em muitas horas antecedentes ao início do Show.
Filas com centenas, e até milhares de fãs se aglomeraram nos dois eventos aqui analisados. E os problemas identificados, ficaram quase que exclusivamente nos aspectos humanos técnicos de execução do evento, aqui entendidos como os profissionais identificados para a realização das funções operacionais do evento. Reafirmo que na entrega do Show para o público, as equipes de sonorização, iluminação e recursos cênicos e performáticos teve um desempenho acima do esperado.
Para os outros, cada evento será analisado, na sequência.
Show em Porto Alegre – dia 07 de novembro
Em Porto Alegre, o Show foi realizado no Estádio José Pinheiro Borda, também conhecido como Gigante da Beira-Rio, sede do clube de futebol Sport Club Internacional (a estrutura, infraestrutura e entorno serão analisados em outro texto).
Figura 1: Entrada principal (pela A. Padre Cacique) - Estádio Beira Rio - Porto Alegre (RS). Fonte: Cezar Galhart
Entrada e organização das filas - Chegamos ao estádio no horário de 15h50min, e o acesso à pista (gramado) seria pelo portão 6.
Mesmo com sinalização, confirmei com pessoas que lá estavam se a fila na qual eu acreditava ser a minha seria a correta. Não havia profissionais identificados para prestarem informações.
Filas e aglomerações paralelas ocorriam, mesmo com a denúncia e reclamação de pessoas que estavam na fila desde a manhã daquele domingo, ou mesmo desde a noite anterior. A organização até aquele momento era realizada pela Brigada Militar, de forma eficiente para as obrigações dos policiais ali presentes e atuantes. Também, era possível identificar os seguranças do clube, mas com funções de segurança patrimonial.
Em torno de 16h30min apareceram as primeiras pessoas, identificadas com coletes coloridos, e a inscrição de “orientador”, com respectivo número de identificação do profissional (?) contratado. Mas estavam em grupos, e conversam entre elas.
Somente no horário de 17h20min – 10 minutos antes do horário previsto para a abertura dos portões – os “orientadores” agiram de forma a tentar organizar as filas que naquele momento já eram aglomerações indecifráveis. Identifiquei ao todo cinco profissionais.
Figura 2: Orientadores de filas - Estádio Beira Rio - Porto Alegre (RS). Fonte: Cezar Galhart
Para surpresa de todos, muitos daqueles que haviam recém chegado foram conduzidos por uma “orientadora” a formarem uma fila, paralela à fila daqueles que chegaram antes, mas na frente da maioria que estava desde o início da tarde de domingo.
Na entrada, triagem, realizada por seguranças experientes para a revista e verificação dos pertences (mochilas, bolsas), e duas profissionais que ocupavam posições nas catracas, sendo que uma fazia a leitura do ingresso com scanner, e a segunda perfurava o ingresso, com agilidade.
Figura 3: Orientadores de triagem - revista - Estádio Beira Rio - Porto Alegre (RS). Fonte: Cezar Galhart
Figura 4: Orientadores de triagem - ingressos - Estádio Beira Rio - Porto Alegre (RS). Fonte: Cezar Galhart
Análise do processo:
- Faltaram treinamento e capacitação dos profissionais orientadores (identificados por mim), tanto para a avaliação da situação momentânea, interação com os participantes (comunicação), respeito e educação.
- O horário de chegada dos profissionais orientadores e dos participantes foi incompatível, o que naturalmente geraria conflitos e insatisfação. No planejamento operacional, a necessidade de presença de profissionais capacitados é condição essencial de resultados positivos, na organização e tranquilidade para o evento.
- Não havia um plano operacional para as equipes de orientadores. Quando chegaram, agruparam-se, ao invés de assumirem posições predefinidas. É importante um mapeamento das funções e posições dos profissionais nos diversos lugares, acessos e ambientes do evento.
- A triagem foi rápida e eficiente, com profissionais experientes e capacitados (mais sobre a triagem na análise dos instrumentos como tecnologias).
Venda de alimentação e souvenires – Como alimentação, quiosques de bebidas e comidas no lado externo, e barracas para souvenires nos lados externo e interno.
Para a alimentação, não havia quaisquer indicações para inspeções dos órgãos competentes, e as bebidas, que em função do calor acabaram rapidamente, eram entregues em temperatura ambiente. O atendimento também foi insatisfatório, principalmente nas barracas situadas no lado externo.
Havia ambulantes, mas o contato foi superficial, sem a possibilidade de avaliação.
Figura 5: Vendedores ambulantes - sorvete - Estádio Beira Rio - Porto Alegre (RS). Fonte: Cezar Galhart
Para os souvenires vendidos em Porto Alegre, mais tranquilidade, mas em parte pela experiência das profissionais que trabalhavam nesses postos. Atendimento rápido, com objetividade e coordenação.
Figura 6: Quiosque de souvenires - Estádio Beira Rio - Porto Alegre (RS). Fonte: Cezar Galhart
Análise do processo:
- Subdimensionamento dos recursos (bebidas) para os públicos. Talvez, em parte, pela falta de experiência dos profissionais (?) atuantes.
- Há necessidade de acompanhamento dos serviços de alimentação pelos profissionais da ANVISA e órgãos competentes. A situação no Brasil é amadora e precária.
Show em São Paulo – dia 22 de novembro
Em São Paulo, o Show foi realizado no Estádio Cícero Pompeu de Toledo, também conhecido como Morumbi, sede do clube de futebol São Paulo Futebol Clube (a estrutura, infraestrutura e entorno serão analisados em outro texto).
Entrada e organização das filas - Cheguei ao estádio no horário de 16h00min, com chuva intensa, e o acesso à arquibancada (Setor Vermelho) seria pelo portão 15B.
Com sinalização apenas na respectiva entrada do estádio, as filas se formavam nas ruas de acesso lateral ao estádio, particularmente pela Rua Dr. Erasmo Teixeira de Assunção. Os profissionais identificados para prestarem informações ficaram protegidos em uma tenda (preta), ao lado de um estabelecimento comercial.
Figura 7: Fila para Arquibancada (Setor Vermelho) e Pista - Estádio Morumbi - São Paulo(SP). Fonte: Cezar Galhart
Filas e aglomerações paralelas ocorriam similares ao percebido em Porto Alegre.
No horário de 17h20min, já na fila, surgiu a primeira profissional que conseguiu organizar a fila. Mérito de uma profissional com postura e demonstrava experiência.
Figura 8: Fila organizada para Arquibancada (Setor Vermelho) - Estádio Morumbi - São Paulo(SP). Fonte: Cezar Galhart
Já na entrada, a triagem era realizada pela Polícia Militar. Contradições e falhas de comunicação faziam com que copos de água fossem barrados, assim como jornais e papéis (com a alegação de serem inflamáveis, em um dia com chuvas torrenciais), e guarda-chuvas e sombrinhas fossem liberados.
Figura 9: Entrada e triagem - Estádio Morumbi - São Paulo(SP). Fonte: Cezar Galhart
Na catraca, apenas uma profissional que realizava a coleta dos ingressos e validação no sistema de captação existente (análise em texto sobre os equipamentos como tecnologias).
Figura 10: Entrada e triagem - Estádio Morumbi - São Paulo(SP). Fonte: PlanMusic
Análise do processo:
- Acredito que a profissional responsável pela organização e orientação das filas teve capacitação, para este ou eventos anteriores, mas demonstrou tranquilidade e objetividade, sem faltar com a educação ou respeito, além de senso de posicionamento e orientação, função básica da mesma.
- A avaliação do horário de chegada dos profissionais orientadores e dos participantes é a mesma para o Show realizado em Porto Alegre.
- Falhas de comunicação, nas informações transmitidas pela produtora, para a proibição de objetos, e a atuação da Polícia Militar, na execução da triagem e recolhimento dos pertences dos participantes.
Venda de alimentação e souvenires – Como alimentação, ambulantes nos lados externo e interno, e barraca para souvenires no lado interno.
Para a alimentação, ambulantes despreparados, e até certo ponto, inconsequentes. Durante o Show, passavam pelas pessoas, gritavam nos ouvidos das pessoas e batiam as caixas de isopor nos participantes (como se empurrassem), sem sequer pedir licença.
Para os souvenires vendidos em São Paulo, um agravante. Pessoas despreparadas, mal-educadas e até desdenhosas vendiam os souvenires oficiais no acesso às arquibancadas do setor vermelho. Além de menosprezarem os consumidores (que ocupavam de forma ordenada os lados e frente do quiosque), ainda faziam questão de ignorarem pedidos e reclamações.
Figura 11: Barraca de souvenires - Estádio Morumbi - São Paulo(SP). Fonte: Cezar Galhart
Análise do processo:
- Amadorismo na condução profissional para as duas situações.
- Ambulantes desqualificados e imprevisíveis, incompatíveis com os públicos do evento.
- Vendedores dos quiosques irresponsáveis e despreparados para o exercício de atividades vinculadas ao atendimento ao público.
Nestes itens analisados, para os dois shows, fica claro o abismo existente entre atuação em eventos e capacitação de profissionais atuantes nos eventos.
Para os poucos destaques positivos, exemplos a serem seguidos.
Para os muitos destaques negativos, preocupação e necessidade urgente de revisão dos processos, e qualificação dos profissionais, responsáveis mesmo pela organização operacional do evento e até dos responsáveis pelo recrutamento e seleção de quem trabalhará nos eventos.
A técnica como tecnologia chave de um evento surge como um paradigma a ser suplantado no Brasil, como necessidade básica para a profissionalização do setor, e para que o Brasil ocupe melhores posições como referência para turnês mundiais de artistas consagrados. Esse amadorismo não pode persistir.
No próximo texto, os equipamentos como tecnologias nos Shows do Paul McCartney.












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